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José Ribamar Ferreira nasceu em São Luís (Maranhão), em 1930. Fez poesia de vanguarda no início de sua carreira literária, mas, após aderir à luta contra o regime militar nas décadas de 60 e 70, abandona o vanguardismo (o da poesia concreta) e passa a escrever poemas de engajamento político.

Principais Obras de Ferreira Gullar

  • A Luta Corporal (1958)

  • Dentro da Noite Veloz (1975)

  • Poema Sujo (1975)

  • Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come (peça teatral em parceria com Oduvaldo Viana Filho)

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.
-porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores
não fede
nem cheira


TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, podera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte
linguagem

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?